Poucos temas da saúde da mulher geram tanto medo quanto a reposição hormonal. Boa parte desse receio vem de 2002, quando foram divulgados os primeiros resultados do WHI, um grande estudo americano. Mais de vinte anos depois, com a reanálise dos dados e novos estudos, a conversa ficou mais precisa: há mulheres para quem os benefícios superam os riscos, há quem não deva usar, e a decisão é sempre individual.
Em resumo
- A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para os calorões e para o ressecamento vaginal da menopausa.
- Para mulheres sem contraindicações, com menos de 60 anos ou até 10 anos depois da última menstruação, que têm calorões incômodos ou precisam prevenir a perda óssea, os benefícios costumam superar os riscos.
- O aumento do risco de câncer de mama com estrogênio e progestagênio é pequeno em números absolutos: menos de 1 caso a mais por 1.000 mulheres por ano de uso.
- Não há prazo fixo para parar, mas há contraindicações, e a terapia não é indicada para prevenir doença do coração ou demência em quem não tem sintomas.
Para quem os benefícios superam os riscos
Segundo a Menopause Society, sociedade norte-americana de menopausa, e o Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério (SOBRAC, 2024), a relação entre benefícios e riscos é favorável para mulheres sem contraindicações, com menos de 60 anos ou até 10 anos depois da menopausa, que tenham calorões incômodos ou precisem prevenir a perda óssea. É a chamada janela de oportunidade.
Começar depois dos 60 anos, ou mais de 10 anos depois da menopausa, é menos favorável, porque nessa fase são maiores os riscos de doença coronariana, AVC, trombose e demência. Para quem tem mais de 60 anos e mais de 10 anos de menopausa, o consenso brasileiro orienta considerar primeiro outras opções.
Os benefícios vão além do calorão: a terapia melhora o sono de quem acorda com suor noturno, trata o ressecamento vaginal e previne a perda óssea e as fraturas. Leia mais em Insônia, névoa mental e ansiedade na menopausa e em Dor nas articulações e ossos na menopausa.
Assistir no YouTubeCâncer de mama: o que os números mostram
No WHI, as mulheres que usaram estrogênio junto com progestagênio tiveram cerca de 8 a 9 casos a mais de câncer de mama por 10 mil mulheres por ano, em comparação com o placebo. Já as que usaram só estrogênio, que são mulheres sem útero, tiveram 7 casos a menos por 10 mil mulheres por ano. No acompanhamento de mais de 20 anos, esse padrão se manteve.
Na prática, a Menopause Society resume o aumento com a combinação como menos de 1 caso a mais por 1.000 mulheres por ano de uso. O risco cresce com o tempo de uso e depende do tipo de hormônio. Estudos observacionais sugerem que a progesterona micronizada pode ter um perfil mais favorável para a mama do que outros progestagênios, mas ainda faltam estudos randomizados que confirmem.
Para completar o quadro: a obesidade depois da menopausa também é fator de risco para câncer de mama, segundo a Organização Mundial da Saúde e o INCA. Por isso, cuidar do peso faz parte da conversa, com ou sem terapia hormonal.
Trombose: a via faz diferença
O risco de trombose aparece principalmente com o estrogênio tomado pela boca. Estudos observacionais mostram que o estrogênio aplicado na pele, em gel ou adesivo, tem risco menor, embora ainda faltem estudos randomizados comparando as vias. Por isso, a diretriz brasileira de saúde cardiovascular da mulher na menopausa, de 2024, prefere a via pela pele em mulheres com obesidade, colesterol alto, diabetes ou síndrome metabólica.
A terapia pode ser feita por diferentes vias, e escolher a via e a dose certas faz parte do tratamento. Não é um detalhe.
Contraindicações
As diretrizes não recomendam a terapia hormonal sistêmica para mulheres com:
- câncer de mama atual ou prévio, ou outro câncer que dependa de hormônio;
- sangramento vaginal ainda sem explicação;
- doença do fígado descompensada;
- doença coronariana, infarto ou AVC prévios;
- trombose prévia, trombofilia ou risco alto de trombose. Para o consenso brasileiro (SOBRAC, 2024), isso contraindica tanto a via oral quanto a via pela pele; a diretriz cardiológica de 2024 admite avaliar a via pela pele só em casos muito selecionados, conforme a causa da trombose e com acompanhamento especializado.
Histórico de câncer de mama na família, por si só, não aparece nas listas de contraindicação das diretrizes. Mulheres com risco genético muito alto, porém, precisam de uma avaliação individual, muitas vezes junto com o mastologista.
Quanto tempo leva para fazer efeito
A resposta varia de mulher para mulher, principalmente no início do tratamento e durante a transição. A Dra. Kennya costuma comparar com uma casa toda bagunçada: não dá para arrumar todos os cômodos no mesmo dia. Alguns sintomas melhoram logo, outros levam mais tempo, e é por isso que a terapia hormonal pede acompanhamento, reavaliação e ajuste.
A decisão começa por uma conversa longa, sobre sintomas, histórico pessoal e familiar, exames em dia, incluindo a mamografia, e o que você espera do tratamento. Na consulta com a Dra. Kennya, que dura cerca de duas horas, esse plano é construído junto com você e revisto no acompanhamento. Se você ainda está entendendo a fase que está vivendo, comece por Climatério e menopausa: sinais, fases e quando procurar a ginecologista.
Perguntas frequentes
Reposição hormonal engorda?
Em média, não. Os estudos não mostram diferença de peso entre quem usa e quem não usa, e a terapia pode até reduzir um pouco o acúmulo de gordura na barriga. No começo, podem aparecer inchaço e sensibilidade nas mamas. A terapia hormonal também não é tratamento para emagrecer: o que muda o peso nessa fase está em Peso e hormônios.
Existe um prazo máximo de uso?
Não existe prazo máximo obrigatório. A Menopause Society e o consenso brasileiro orientam reavaliar periodicamente os benefícios e os riscos, sem uma regra fixa de idade para parar.
Toda mulher na menopausa precisa de reposição?
Não. A terapia trata sintomas e previne a perda óssea em quem tem indicação. Para prevenir doenças do coração ou demência em mulheres sem sintomas, ela não é recomendada.
O que mudou nas bulas dos Estados Unidos?
Em novembro de 2025, a FDA, agência que regula medicamentos nos Estados Unidos, pediu que as bulas americanas deixassem de trazer, no quadro de alerta em destaque, os avisos sobre doença cardiovascular, câncer de mama e demência. As informações sobre doença cardiovascular e câncer de mama continuam em outras partes da bula dos produtos de uso sistêmico, o aviso sobre demência saiu da bula, e o alerta em destaque sobre câncer de endométrio continua para o estrogênio sistêmico usado sozinho. A mudança vale para as bulas americanas, e a FEBRASGO lembrou que ela “não significa liberação para uso irrestrito”.
Referências
- The North American Menopause Society. The 2022 hormone therapy position statement. Menopause, 2022.
- SOBRAC. Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério, 2024.
- Chlebowski RT et al. Association of menopausal hormone therapy with breast cancer incidence and mortality during long-term follow-up of the WHI randomized clinical trials. JAMA, 2020.
- Oliveira GMM et al. Brazilian Guideline on Menopausal Cardiovascular Health. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 2024.
- FDA. FDA requests labeling changes for menopausal hormone therapies, 2025.
- FEBRASGO. Esclarecimento sobre a retirada dos alertas das bulas de terapia hormonal da menopausa, 2025.


