“Eu esqueço palavras no meio da frase.” “Acordo às três da manhã e não durmo mais.” “Fico ansiosa sem motivo.” Essas queixas aparecem juntas com frequência no climatério, e muitas mulheres têm medo de que sejam o começo de uma doença mais grave. Na maioria das vezes, fazem parte da transição hormonal e têm tratamento. Mas há sinais que pedem a investigação de outras causas, e vale conhecê-los.
Em resumo
- A névoa mental da perimenopausa é real, mas costuma ser leve e passageira: no estudo SWAN, o desempenho voltou ao padrão depois da menopausa.
- Problemas de sono são comuns nessa fase. Os calorões noturnos e a apneia do sono, que fica mais frequente depois da menopausa, estão entre as causas.
- A perimenopausa é uma fase de maior risco para sintomas depressivos, principalmente para quem já teve depressão.
- Para a insônia, a terapia cognitivo-comportamental é o tratamento de primeira linha; a terapia hormonal ajuda quando os calorões atrapalham o sono.
Névoa mental: o que os estudos mostram
No SWAN, que acompanhou mais de 2 mil mulheres americanas, o desempenho em memória e em velocidade de raciocínio deixou de melhorar com a repetição dos testes durante a perimenopausa e voltou ao padrão depois da menopausa. Os autores concluíram que essas dificuldades podem ser limitadas no tempo.
As quedas medidas nos testes são pequenas e, para quase todas as mulheres, ficam dentro da normalidade, mesmo quando a sensação no dia a dia incomoda: esquecer nomes, perder o fio da conversa, demorar para encontrar uma palavra.
A terapia hormonal não é recomendada para prevenir ou tratar a perda de memória ou a demência, segundo a Menopause Society, sociedade norte-americana de menopausa. O cuidado passa por tratar o que atrapalha a cabeça, como o sono ruim, os calorões, a ansiedade e a sobrecarga.
Assistir no YouTubeInsônia e despertar de madrugada
As queixas de sono são frequentes no climatério. Uma revisão recente, com dados de mais de 1 milhão de mulheres, encontrou sintomas de insônia em cerca de 27% delas na perimenopausa e em 42% na pós-menopausa.
Os calorões e o suor noturno fragmentam o sono, mas não são a única causa. A apneia do sono fica mais comum depois da menopausa e, na mulher, costuma aparecer mais como insônia e cansaço do que como o ronco clássico. Ronco, pausas na respiração notadas por quem dorme junto e sonolência durante o dia pedem investigação.
O tratamento de primeira linha para a insônia crônica é a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I), recomendada pelas diretrizes internacionais e pela Associação Brasileira do Sono. As regras de higiene do sono, sozinhas, não bastam. Quando são os calorões noturnos que acordam, a terapia hormonal melhora o sono ao reduzir os despertares: veja Reposição hormonal na menopausa. Já a melatonina não é recomendada pela diretriz brasileira para insônia crônica em adultos, com exceção de casos específicos em idosos.
Ansiedade, irritabilidade e tristeza
A perimenopausa é uma janela de vulnerabilidade para o humor. Em estudos que acompanharam mulheres sem história de depressão, a chance de sintomas depressivos importantes dobrou ao entrar na perimenopausa. Quem já teve depressão tem risco maior.
Isso não quer dizer que toda mulher vá ter depressão ou ansiedade na menopausa. Uma revisão publicada na revista The Lancet, em 2024, mostrou que o risco se concentra em alguns grupos: mulheres com calorões intensos que atrapalham o sono, transição longa, eventos estressantes e história de depressão.
Quando há depressão, o tratamento de primeira linha são os antidepressivos e a psicoterapia. O estrogênio pode ajudar nos sintomas de humor da perimenopausa, principalmente quando há calorões, mas não substitui esse tratamento. Mais sobre as fases do climatério em Climatério e menopausa: sinais, fases e quando procurar a ginecologista.
Outras causas que precisam ser investigadas
Cansaço, esquecimento e sono ruim também podem vir de outras condições, que merecem ser checadas:
- alterações da tireoide;
- anemia por falta de ferro e deficiência de vitamina B12;
- apneia do sono;
- efeitos de medicamentos e uso de álcool;
- depressão e ansiedade que precisam de tratamento próprio.
Por isso, a avaliação não para no hormônio: ela olha sono, humor, rotina, remédios e exames. Na consulta com a Dra. Kennya, a primeira consulta dura cerca de duas horas, com tempo para esse olhar completo.
Quando procurar avaliação
Procure avaliação se:
- os esquecimentos são frequentes a ponto de você se perder em lugares conhecidos, repetir as mesmas perguntas ou não conseguir seguir instruções que antes seguia;
- o sono ruim dura semanas e afeta o seu dia;
- há ronco alto, pausas na respiração ou sonolência durante o dia;
- a tristeza, a ansiedade ou a irritação estão atrapalhando o trabalho e as relações;
- surgirem pensamentos de morte ou de se machucar. Nesse caso, procure ajuda imediata: CVV pelo 188, de graça e 24 horas, ou SAMU pelo 192.
Perguntas frequentes
Névoa mental é sinal de Alzheimer?
Na grande maioria das vezes, não. A névoa mental da perimenopausa costuma ser leve e passageira. Sinais como se perder em lugares conhecidos ou não conseguir seguir instruções simples, porém, precisam de avaliação.
Reposição hormonal melhora a memória?
A terapia hormonal não é recomendada para melhorar a memória ou prevenir demência. Ela pode ajudar de forma indireta quando melhora o sono de quem acorda com calorões.
Melatonina resolve a insônia da menopausa?
Para a insônia crônica em adultos, a diretriz brasileira não recomenda a melatonina. O tratamento de primeira linha é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, e a causa dos despertares precisa ser investigada.
Referências
- Greendale GA et al. Effects of the menopause transition and hormone use on cognitive performance in midlife women. Neurology, 2009.
- Maki PM et al. Guidelines for the evaluation and treatment of perimenopausal depression. Menopause, 2018.
- Balasubramanian I et al. Prevalence and incidence of depressive, anxiety, and insomnia symptoms in perimenopausal and postmenopausal women: systematic review and meta-analysis. General Hospital Psychiatry, 2026.
- Drager LF et al. 2023 Guidelines on the diagnosis and treatment of insomnia in adults: Brazilian Sleep Association. Sleep Science, 2023.
- Brown L et al. Promoting good mental health over the menopause transition. The Lancet, 2024.
- The North American Menopause Society. The 2022 hormone therapy position statement. Menopause, 2022.


