“Estou comendo igual, faço tudo certo e a barriga só cresce.” É uma queixa comum no consultório a partir dos 40 anos. A sensação de que o corpo mudou as regras não é imaginação: a relação entre peso e hormônios muda nessa fase, e a transição hormonal altera a forma como o corpo guarda gordura e mantém os músculos. Mas ela não é a única explicação possível, e por isso vale investigar.
Em resumo
- Na transição para a menopausa, o corpo tende a ganhar gordura e perder massa magra, mesmo quando a balança muda pouco.
- A gordura passa a se concentrar mais na barriga, o que pesa na saúde do coração e do metabolismo.
- Tireoide, síndrome dos ovários policísticos, resistência à insulina, sono e alguns medicamentos também influenciam o peso.
- Olhar só a balança engana: a composição corporal mostra melhor o que está acontecendo.
O que muda no corpo na transição para a menopausa
O SWAN, um grande estudo americano que acompanhou mulheres por vários anos, mostrou um padrão claro: quando a transição para a menopausa começa, o ritmo de ganho de gordura dobra e a massa magra passa a diminuir. Essas mudanças seguem até cerca de dois anos depois da última menstruação e, depois, tendem a se estabilizar.
No mesmo estudo, o peso na balança continuou subindo no mesmo ritmo de antes, sem acelerar na menopausa. Ou seja, a mudança está menos no número da balança e mais na composição do corpo. Outros estudos mostram que, nessa fase, a gordura tende a se acumular mais na barriga, inclusive a gordura visceral, que fica entre os órgãos.
Na consulta, a Dra. Kennya costuma descrever essa mudança como a passagem do corpo em formato de pera, com cintura fina e quadril largo, para o formato de maçã, com a cintura mais arredondada.
Essa gordura abdominal está ligada a mais risco cardiovascular e metabólico. É por isso que a mudança no formato do corpo merece atenção, e não só por estética.
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Tireoide
O hipotireoidismo, quando a tireoide funciona menos, deixa o metabolismo mais lento e pode causar ganho de peso. Segundo a Associação Americana de Tireoide, esse ganho costuma ser modesto, de 2 a 4,5 quilos dependendo da intensidade, e boa parte é retenção de sal e água. Tratar a tireoide é importante, mas ela raramente explica sozinha um ganho de peso grande.
Síndrome dos ovários policísticos (SOP)
A SOP é uma alteração hormonal comum em mulheres em idade reprodutiva e costuma vir acompanhada de resistência à insulina, que facilita o acúmulo de gordura, principalmente na barriga. Ciclos irregulares, acne e aumento de pelos são outros sinais.
Resistência à insulina
Mesmo sem SOP, a resistência à insulina pode surgir com os anos, com o sedentarismo e com o aumento da gordura abdominal, num ciclo que se alimenta. Exames de sangue simples ajudam a identificar esse quadro cedo.
Sono, estresse e medicamentos
Dormir mal mexe com a fome e a saciedade e, além disso, noites ruins são comuns no climatério. O estresse do dia a dia também pesa. Alguns medicamentos de uso contínuo podem favorecer o ganho de peso: isso deve ser revisto com o médico que os prescreveu, nunca suspenso por conta própria.
Por que a balança engana
Duas mulheres com o mesmo peso podem ter corpos muito diferentes. Quem perde massa magra e ganha gordura pode manter o número da balança, mas percebe a roupa apertar na cintura e sente menos força e disposição. Por isso, quando o assunto é peso e hormônios, a avaliação olha também a circunferência abdominal e a composição corporal.
Na consulta com a Dra. Kennya, a bioimpedância estima quanto do peso é gordura e quanto é massa magra, e ajuda a acompanhar a evolução ao longo do tratamento. Por que preservar o músculo importa tanto está em Emagrecer preservando o músculo.
Peso e hormônios: o que ajuda de verdade
- Investigar antes de tratar: entender a fase hormonal, a tireoide, o metabolismo e a rotina evita tratar só o sintoma.
- Exercício de força: é o principal estímulo para preservar a massa magra, que tende a cair nessa fase. A atividade aeróbica complementa o cuidado com o coração.
- Alimentação com proteína suficiente, fibras e menos ultraprocessados, sem dietas radicais, que costumam custar massa magra.
- Sono como prioridade, tratando os sintomas do climatério que atrapalham a noite.
- Plano individual: em alguns casos, há indicação de medicamentos, sempre com avaliação de benefícios e riscos e acompanhamento médico.
Não existe atalho seguro. Promessas de emagrecimento rápido costumam custar massa magra e trazer o peso de volta. Se você está no climatério, leia também Climatério e menopausa: sinais, fases e quando procurar a ginecologista. Se o aumento se concentra nas pernas e no quadril, com dor ao toque e roxos fáceis, leia Lipedema: o que é, sinais e como diferenciar da obesidade.
Quando procurar avaliação
Vale procurar avaliação se:
- o peso subiu rápido ou sem mudança de hábitos;
- a cintura aumentou e vieram junto cansaço, queda de cabelo, intestino preso ou sensação de frio fora do normal;
- os ciclos estão irregulares, com acne ou aumento de pelos;
- os sintomas do climatério apareceram junto com as mudanças no corpo;
- há histórico familiar de diabetes, colesterol alto ou doença do coração.
Perguntas frequentes
A menopausa engorda?
A transição hormonal favorece mais gordura na barriga e menos massa magra. O ganho de peso em si costuma ter várias causas ao mesmo tempo, como idade, sono, rotina e alimentação. Por isso, a abordagem precisa olhar o conjunto.
Hipotireoidismo engorda muito?
Em geral, não. O ganho ligado à tireoide costuma ser modesto, e boa parte é retenção de líquido. Se o peso subiu muito, vale investigar outras causas junto.
A bioimpedância substitui a balança?
Ela complementa. A balança mostra o peso total; a bioimpedância estima quanto dele é gordura, massa magra e água. Para comparar resultados, o ideal é repetir o exame nas mesmas condições.
Referências
- Greendale GA et al. Changes in body composition and weight during the menopause transition. JCI Insight, 2019.
- Lovejoy JC et al. Increased visceral fat and decreased energy expenditure during the menopausal transition. International Journal of Obesity, 2008.
- American Thyroid Association. Thyroid and Weight.
- Organização Mundial da Saúde. Menopause (nota descritiva), 2024.


