A queda do desejo é uma das queixas mais frequentes no consultório, principalmente a partir dos 40 anos, e costuma vir acompanhada de culpa. Muitas mulheres chegam achando que o problema é só hormonal e que um exame vai explicar tudo. A libido feminina, porém, é mais complexa: os hormônios contam, mas cansaço, estresse, autoestima, relacionamento e saúde emocional pesam tanto quanto.
Em resumo
- Desejo baixo, por si só, não é doença. Vira problema quando causa sofrimento.
- Em um grande estudo americano, cerca de 4 em cada 10 mulheres relataram desejo baixo, e cerca de 1 em cada 10 tinha desejo baixo acompanhado de sofrimento.
- Na mulher, o desejo muitas vezes aparece depois do estímulo, e não antes. Isso é normal.
- Na menopausa, tratar o ressecamento e a dor na relação faz muita diferença; a reposição hormonal sozinha costuma não resolver a falta de desejo.
Como funciona o desejo feminino
O modelo clássico imagina o desejo como algo espontâneo, que surge primeiro e leva à relação. A pesquisadora Rosemary Basson descreveu que, em muitas mulheres, a sequência é outra: a disposição para a intimidade vem da conexão, do contexto e do estímulo, e o desejo aparece no caminho. É o chamado desejo responsivo, e ele é normal.
A Dra. Kennya costuma resumir com uma imagem: o homem muitas vezes funciona como um fogão a gás, que acende rápido; a mulher, como um fogão a lenha, que precisa de preparo, conexão e segurança para esquentar.
Assistir no YouTubeO que pode estar por trás da queda do desejo
A Dra. Kennya chama esse conjunto de “elefante da libido”: quando o desejo some, raramente existe uma causa só.
- Cansaço e sobrecarga: jornada dupla, filhos, trabalho e noites mal dormidas.
- Saúde emocional: ansiedade e depressão reduzem o desejo.
- Autoestima e imagem corporal.
- Relacionamento: falta de diálogo, conflitos e rotina.
- Dor na relação e ressecamento vaginal, comuns na menopausa.
- Medicamentos: alguns antidepressivos estão entre os que mais afetam o desejo. Nunca suspenda um remédio por conta própria; converse com quem prescreveu.
- Mudanças hormonais da transição menopausal.
- Outras condições de saúde, como doenças da tireoide e incontinência urinária.
- Cultura e crenças que moldaram a forma como a mulher vive a própria sexualidade.
Por isso, a avaliação olha para a mulher inteira, e não só para um exame de sangue. Não existe um nível de hormônio que, sozinho, diagnostique a falta de desejo.
Menopausa, ressecamento e dor na relação
Com a queda do estrogênio, a mucosa da vagina fica mais fina e menos lubrificada. É a síndrome geniturinária da menopausa, que pode causar ardor, dor na relação e sintomas urinários. Ela é muito comum: atinge de 27% a 84% das mulheres depois da menopausa, conforme o estudo, e costuma ser pouco diagnosticada.
Ela tem tratamento eficaz. Nos casos leves, lubrificantes e hidratantes vaginais costumam resolver. Nos moderados a graves, o estrogênio vaginal em dose baixa, de ação local, é uma das principais opções das diretrizes.
Um ponto que surpreende: segundo o consenso brasileiro de terapia hormonal (SOBRAC, 2024), a reposição hormonal sistêmica em geral não melhora, sozinha, o interesse sexual. Ela pode ajudar de forma indireta, quando alivia os calorões e melhora o sono. Quando o que atrapalha é o ressecamento ou a dor na relação, o tratamento que melhora a vida sexual é o estrogênio vaginal em dose baixa. Veja mais em Reposição hormonal na menopausa: riscos reais, contraindicações e mitos.
E a testosterona?
A testosterona também é um hormônio feminino, mas não é a chave de tudo. Pelo consenso internacional de 2019, a única indicação com evidência é o transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres na pós-menopausa, depois de uma avaliação completa. Nesses casos, o tratamento é feito com acompanhamento médico e suspenso se não houver benefício em até 6 meses.
Ela não é indicada para dar energia, emagrecer, ganhar massa muscular ou melhorar o bem-estar geral, e a Resolução nº 2.333/2023 do Conselho Federal de Medicina veda aos médicos prescrever ou divulgar hormônios androgênicos com fins estéticos, de ganho de massa muscular ou de desempenho esportivo.
Quando procurar ajuda
Vale conversar com a ginecologista se:
- a falta de desejo incomoda você ou está afetando o relacionamento;
- há dor, ardor ou ressecamento na relação;
- a mudança veio junto com outros sintomas do climatério, como calorões, sono ruim ou alterações de humor;
- a queda do desejo começou depois de um remédio novo;
- há tristeza persistente, ansiedade ou falta de prazer em outras áreas da vida.
Na consulta, há tempo para falar disso com calma: a primeira consulta dura cerca de duas horas. Às vezes, o plano inclui ajustes hormonais; em outras, terapia sexual, cuidado com a saúde emocional e conversa a dois. Muitas vezes, uma combinação. Se o sono e o humor também estão pesando, leia Insônia, névoa mental e ansiedade na menopausa.
Perguntas frequentes
Libido baixa é sempre hormonal?
Não. Os hormônios são uma das peças, mas cansaço, saúde emocional, relacionamento, dor e remédios pesam tanto quanto. Por isso, a avaliação precisa olhar o conjunto.
Existe exame que mostra se a libido está baixa?
Não. O diagnóstico é feito pela conversa e pelo exame clínico. Exames de sangue ajudam a avaliar outras condições, como a tireoide, mas nenhum nível de hormônio, sozinho, define o problema.
Desejo que só aparece depois do carinho é normal?
É. O desejo responsivo, que surge com o estímulo e a conexão, é uma forma normal da resposta sexual feminina.
Referências
- Basson R. Women’s sexual dysfunction: revised and expanded definitions. CMAJ, 2005.
- Shifren JL et al. Sexual problems and distress in United States women: prevalence and correlates. Obstetrics and Gynecology, 2008.
- The North American Menopause Society. The 2020 genitourinary syndrome of menopause position statement. Menopause, 2020.
- Davis SR et al. Global consensus position statement on the use of testosterone therapy for women. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 2019.


